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Graça. Cristã. Licenciada em Português, Inglês e Suas Literaturas e Teologia. Gerenciadora de Projetos Educacionais, autodidata em Scrap Digital. Certificada em Arteterapia e Pós-graduada em Psicopedagogia Clínico- Institucional.

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''A educação deve propiciar ao corpo e à alma toda a perfeição e beleza que podem ter'' (Platão)

''Entre os estudos, comecemos por aqueles que nos façam livres'' (Montaigne)

''As luzes que inventaram as liberdades inventaram também as disciplinas.'' (Michel Foucault)

''Toda conduta é ditada por um interesse; toda ação consiste em atingir o objetivo que é mais urgente naqyele momento determinado.'' (Claparède)

quinta-feira, 24 de julho de 2014

UMA NEUROPSICÓLOGA A FAVOR DA EDUCAÇÃO


Aos 16 anos, ela quase repetiu de ano por conta das disciplinas vilãs: matemática e física. Isso só não aconteceu por conta das metodologias próprias criadas por ela, nas quais atrelava os conteúdos escolares sempre a coisas cotidianas. O recurso deu tão certo, que, no ano seguinte, a própria escola passou a indicá-la como professora particular para estudantes do ensino fundamental. A experiência, na adolescência, foi o combustível que despertou em Adriana o interesse em entender quais eram os estímulos necessários para aumentar a capacidade de aprendizagem nas pessoas. Hoje, mais de duas décadas depois, Adriana Fóz carrega um currículo extenso e a superação de um AVC, que a fez adentrar na neurociência. Entre seus ofícios, dedica-se aos avanços da neurociência na educação, já escreveu livros sobre o funcionamento do cérebro, inclusive, para crianças, além de coordenar um projeto voltado à prevenção e saúde mental, em que capacita professores sobre como lidar com a raiva e a ansiedade no convívio escolar.
Aos vinte e poucos anos, Adriana já acumulava uma graduação em educação e o título de pós-graduada em psicopedagogia. Na época, ela estava determinada a descobrir como mobilizar a emoção dos alunos para alcançar a chamada aprendizagem significativa, termo cunhado pelo psicólogo norte-americano David Ausubel ao afirmar que aquilo que é aprendido sempre precisa fazer algum sentido para o aluno.
Giovanni Cancemi / Fotolia.com
 
Mergulhada na teoria de Ausubel, ela começou a formar grupos de estudos com a presença de especialistas renomados, como o neurocientista Nelson Annunciato, PhD em programas de reabilitação neurológica da Universidade de Munique, na Alemanha, e o neurologista José Salomão Schwartzman, especialista em neurologia infantil. “Eu era bem mais jovem que eles. O que era uma honra para mim. Era como se eu fosse um peixe fora d’água nadando no imenso oceano”, afirma ela, que então vivia o auge de sua vida profissional. Nessa época, inclusive, abriu uma clínica multidisciplinar formada por diferentes profissionais, como fonoaudiólogos, psicólogos e terapeutas familiares. “Era algo muito inovador.”
Aos 32 anos, Adriana teve sua vida virada ao avesso: sofreu um AVC hemorrágico. Passou quatro meses internada e quatro anos em reabilitação.
No entanto, aos 32 anos, sua vida deu uma reviravolta quando sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) hemorrágico. Passou quatro meses internada e quatro anos em reabilitação. Perdeu os movimentos do lado direito do corpo e não reconhecia nem mesmo seu próprio marido, com quem estava casada havia dez anos. “Eu, que era especialista em leitura e escrita, não sabia mais ler nem escrever”, conta. “Foi como se tivesse dado um reset no meu HD interno, no qual eu precisava colocar tudo novamente.”
Com depressão patológica e limitações físicas e cognitivas, Adriana parou de clinicar e começou a buscar outras atividades à medida que sua recuperação progredia. Fez aulas de samba, para reaprender cognitivamente a andar, e curso de palhaço, para rir de si mesma. “Fui desenvolvendo habilidades que até então eu não precisava, já que antes eram automáticas, como andar ou segurar uma escova de dentes.”
Esses “novos” hábitos foram fundamentais para que ela adentrasse mais a fundo no campo da neurociência. “Eu precisava entender por que, apesar de eu não ter tido um derrame no cerebelo (parte do cérebro responsável pela ação motora), eu não podia andar direito. Por que a minha visão havia ficado comprometida, se minha região occipital (parte do cérebro que comanda a visão) não havia sofrido nenhum dano? Por que não sabia mais ler nem escrever, se a região parietal (responsável pela leitura e escrita) estava sem nenhuma lesão?”
“A neurociência chega a ser vital. Na educação, ela tem a função de dar aos professores mais instrumentos e ferramentas para que eles sejam capazes de otimizar suas funções.”
As investigações prosseguiram e acabaram dando origem ao livro A Cura do Cérebro, em que Adriana desvenda, a partir de sua batalha e recuperação do AVC, outras indagações como: por que ela precisava raciocinar para que então pudesse andar ou por que a recuperação da memória era gradual. A viagem pelo cérebro avançou também rumo à academia. Anos depois, já reabilitada, a educadora especializou-se em neuropsicologia na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). 
Neurociência, uma questão vital
“Hoje, para mim, a neurociência chega a ser vital. O professor tem como tarefa, durante o processo de aprendizagem dos alunos, trabalhar a leitura, a matemática, mas imagina se ele também conseguir entender o funcionamento do cérebro. É essa a principal função da neurociência na educação: dar aos professores mais instrumentos e ferramentas para que eles sejam capazes de otimizar suas funções”, afirma.
De acordo com ela, isso é fundamental para minimizar um dos principais problemas que envolvem os professores: o desgaste profissional. Em muitos casos, afirma, o educador não percebe que cada aluno possui um ritmo diferente de aprendizado e que naturalmente ele também precisará de orientações durante esse processo. “O único momento da vida do ser humano onde a região do prazer tem menos neurotransmissores passando pelo cérebro é na adolescência. Por isso os jovens, normalmente, têm aquela inércia, preguiça, crise. Se o professor entende que isso acontece por conta do funcionamento cerebral e não porque o aluno está sendo folgado, ele consegue ajudar muito mais e otimizar a tarefa de educar”, afirma Adriana, que também coordena o projeto Cuca Legal, iniciativa realizada pela Unifesp, que trabalha a prevenção e saúde mental com educadores.
Divulgação
 
Bye, bye, tristeza!
Desde o ano passado, a neuropsicóloga usa elementos da neurociência para ajudar professores de escolas públicas de Paraisópolis – a maior favela de São Paulo, na zona sul da capital – a terem melhores condições de preparar suas aulas. “Para dar aula, o educador precisa, primeiro, aprender a se respeitar enquanto ser humano, que fica estressado, com raiva. Essa compressão é fundamental para que ele também entenda essas características em seus alunos e consiga lidar melhor com eles, tanto do ponto de vista comportamental, quanto pedagógico”, assegura.
“Os professores dessa escola especialmente queriam um trabalho que pudesse ajudá-los a lidar com a raiva. Ensinamos como é o ciclo da raiva, como ela é desenvolvida no cérebro, como acontece no cotidiano.”
Segundo ela, a partir do momento que o professor compreende que um determinado aluno de ensino fundamental tem certa aptidão para aprender linguagem até os dez anos de idade, por exemplo, o professor passa a se tornar mais responsável por interferir diretamente nesse aprendizado e se ajudar a ajudar o aluno.
O projeto está sendo realizado em duas escolas da região. Na escola estadual Maria Zilda Gamba Natel, desde 2012, os professores estão participando das oficinas periódicas, que incluem rodas de discussão sobre como agir e trabalhar aspectos voltados a raiva, ansiedade, tristeza, entre outros. “Os professores dessa escola queriam um trabalho que pudesse ajudá-los a lidar especialmente com a raiva. Ensinamos como é o ciclo da raiva, como ela é desenvolvida no cérebro, como acontece no cotidiano e como eles podem ajudar esses alunos a identificá-la para poder dar espaço ao que é prioridade. Acabamos não só ajudando os professores, mas também o aluno, já que ele passa a perceber a mudança de atitude do educador e melhorar a relação cotidiana”, diz.
A partir deste ano, outra instituição de ensino – a escola estadual Etelvina Góis de Marcucci – também contará com a capacitação dos professores. O projeto pretende, no primeiro ano, trabalhar o comportamento dos professores para, no ano seguinte, promover um avanço pedagógico na escola.
Dentro do cérebro infantil
Mas o cardápio de iniciativas de Adriana parece não ter fim. Além da formação dos professores em Paraisópolis, ela também está à frente de um projeto no Departamento de Instituto do Cérebro, do Hospital Albert Einstein. Lá, ela desenvolve uma coleção de livros para crianças, de cinco a dez anos, sobre o funcionamento do cérebro. “Trazemos exemplos da realidade da criança. Explicamos que andar de skate, por exemplo, estimula o  sistema límbico – responsável por comandar as emoções. É a limbilândia, uma mistura de límbico e Disneylândia.” A primeira obra, afirma, já foi produzida e será lançada em setembro deste ano.
Do ponto de vista prático, Adriana afirma que, há dois anos, realizou esta experiência, piloto, em escolas públicas de São Paulo e de Paraty, no Rio de Janeiro. De acordo com ela, foi possível observar uma melhoria na atitude das crianças quanto ao aprendizado em sala de aula. “Ao entender como funciona seu cérebro, elas passam a mudar seu comportamento e atitude, sentem-se mais estimuladas a aprender outras coisas”, afirma.

sábado, 14 de junho de 2014

Requisitos para Psicopedagogo




#Realizar o trabalho de assistência ao aluno, articulando-se com a equipe técnica, docentes, discentes e integrantes da comunidade escolar, promovendo ações para o desenvolvimento da qualidade da educação e o sucesso da aprendizagem dos alunos.
#Participar da análise qualitativa e quantitativa do rendimento escolar, junto aos professores, especialistas e demais educadores, visando reduzir os índices de evasão e repetência, qualificando o processo ensino aprendizagem.
#Reconhecer, avaliar e encaminhar se necessário os alunos com dificuldade diante das exigências educacionais.
#Elaborar, implantar e acompanhar normas e procedimentos comportamentais e disciplinares para os alunos, orientando os professores e a equipe pedagógica;
#Realizar atendimentos a alunos, conduzir reuniões com pais, além de realizar ações voltadas às questões comportamentais e disciplinares dos alunos quando necessário.
#Promover, conduzir e/ou participar de campanhas educativas, palestras, gincanas e demais atividades voltadas às necessidades dos alunos.
ESAB
http://www.esab.edu.br/


sábado, 7 de junho de 2014

O QUE DIZ A LEI QUE PROÍBE CASTIGOS FÍSICOS EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES

(img: Christopher Nick)

A Lei Menino Bernardo aprovada pelo Congresso (também conhecida como Lei da Palmada) altera o Estatuto da Criança e do Adolescente. 
Saiba o que a nova lei determina:

1. Estabelece o direito da criança e do adolescente a ser educado e cuidado sem o uso de castigos físicos, de tratamento cruel ou degradante como forma de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto
2. A proibição vale para pais, integrantes da família, responsáveis ou qualquer pessoa encarregada de cuidar, tratar, educar ou proteger crianças e adolescentes
3. Castigos físicos são qualquer ação punitiva ou disciplinar com emprego de força física que resulte em sofrimento físico ou lesão
4. Tratamento cruel ou degradante é qualquer ação que humilhe, ameace gravemente ou ridicularize a criança
5. Conforme a gravidade do caso, as medidas punitivas são: advertência, encaminhamento à programa de proteção à família, a tratamento psicológico ou psiquiátrico e a cursos ou programas de orientação
6. Inclui nos currículos escolares do ensino fundamental e médio conteúdos relativos aos direitos humanos e à prevenção de todas as formas de violência contra a criança e o adolescente
7. A União, Estados e Municípios passam a ter que atuar de forma articulada na elaboração de políticas públicas com vistas a coibir o uso de castigos físicos ou tratamento cruel ou degradante e difundir formas não violentas de educação
8. Denúncias de castigos físicos devem ser feitas ao Conselho Tutelar
9. O profissional da saúde, educação, assistência social ou servidor público que não comunicar às autoridades competentes casos de violência que tenha conhecimento fica sujeito à multa de 3 a 20 salários mínimos
10. Os currículos da educação infantil e dos ensinos fundamental e médio terão conteúdos relativos aos direitos humanos e à prevenção de todas as formas de violência contra crianças e adolescentes

(Nota: os itens

6. [...] prevenção de todas as formas de violência contra a criança e o adolescente
e
7. [...] formas não violentas de educação

são o eixo da minha monografia, que terei que rever, uma vez que terá que ser (re)direcionada a pais e responsáveis!)



sábado, 29 de março de 2014

ENTREVISTA COM O CANADENSE PAUL TOUGH


''Muitas vezes, ao tentar proteger nossos filhos, estamos fazendo mais mal do que bem''

Escritor best-seller nos Estados Unidos fala sobre o papel dos pais no desenvolvimento das chamadas habilidades não-cognitivas


"Uma das melhores coisas que você pode fazer pelo seu filho, especialmente na primeira infância, é estar lá com ele. É amá-lo."

''O canadense Paul Tough sempre viveu no mundo da Educação. Com pais e avós educadores, encontrou seu caminho escrevendo matérias e artigos sobre o tema para veículos norte-americanos como The New York Times MagazineThe New YorkerGQ e Esquire. Mas em 2009, algo mudou radicalmente sua relação com a educação: o nascimento de seu filho. Como jornalista, Paul sempre quis entender por que algumas crianças alcançavam sucesso na escola e na vida futuraenquanto outras crianças, não. Também queria saber o que é possível fazer para ajudar crianças de baixa-renda a contornarem sua realidade. Como pai, queria descobrir o que ele e sua mulher tinham de fazer para dar o melhor ao pequeno Ellington.

Durante alguns anos, Paul se lançou na jornada em busca de respostas. Leu inúmeras pesquisas, entrevistou psicólogos, educadores, neurocientistas, pais e alunos para descobrir os ingredientes que levavam a uma vida feliz e bem-sucedida. O resultado dessa empreitada foi direto para as listas de livros mais vendidos nos Estados Unidos e acaba de chegar ao Brasil com o título "Uma questão de caráter", da Editora Intrínseca. 

No livro, Paul traduz em linhas simples e gostosas de ler o que há de mais novo na discussão científica sobre Educação: as chamadas habilidades não-cognitivas. "O que mais importa no desenvolvimento de uma criança não é a quantidade de informação introduzida em seu cérebro nos primeiros anos de vida. O importante é ajudá-la a desenvolver um conjunto muito diferente de qualidades, entre elas persistência, autocontrole, curiosidade, escrupulosidade, determinação e autoconfiança. [...] Temos prestado atenção nas capacitações e habilidades erradas em nossos filhos", escreveu.

O diagnóstico vem com uma boa notícia: a maneira pela qual essas habilidades se desenvolvem não depende de dinheiro ou de remédios, mas, em grande medida, do amor dos pais. Tough descobriu que um relacionamento próximo e acolhedor entre pais e filhos protege as crianças de efeitos nocivos do estresse na infância e contribuem para que elas tenham mais autonomia, sociabilidade e resiliência.

Durante o Fórum Internacional de Políticas Públicas "Educar para as competências do século 21", organizado pela OCDE em parceria com o Instituto Ayrton Senna, Paul Tough conversou com o EDUCAR PARA CRESCER sobre suas pesquisas e descobertas, reunidas no livro "Uma questão de caráter". Leia a entrevista:
1. O que são as habilidades não-cognitivas? Por que isso pode mudar a maneira como entendemos a Educação hoje?
Paul Tough: Muitos pais e educadores estão muito focados no que eu chamo no livro de "hipótese cognitiva". É essa ideia de que a única coisa que conta para o sucesso da criança é o seu QI [Quociente de Inteligência] e a restrita faixa de habilidades cognitivas medidas em testes. O que está faltando na Educação é um outro conjunto de habilidades, como curiosidade, conscienciosidade [determinação, disciplina] e autocontrole, que ainda não se medem em testes e sobre as quais muitos educadores e cientistas, interessados em como as crianças alcançam o sucesso, se debruçaram nos últimos anos.

Muitos pais e educadores sabem intuitivamente que essas habilidades importam e acreditam que desenvolver isso faz parte do papel deles. Porém, a mensagem que eles recebem de todos e do sistema educacional é completamente oposta: "tudo que importa é o que pode ser medido em provas". Mas é insuficiente. Se professores e pais querem realmente que suas crianças alcancem sucesso a longo prazo, eles precisam pensar de maneira mais ampla sobre as habilidades que elas precisam ter. E essa pesquisa sobre as habilidades não-cognitivas, liderada por diferentes neurocientistas, economistas e psicólogos têm apontado esse conjunto de habilidades.
2. Nós tendemos a acreditar em talento nato e que é difícil mudar a maneira como somos, porque nascemos assim. Quais são as evidências científicas sobre o tema? Nós nascemos com essas habilidades ou podemos aprendê-las ao longo da vida?
Paul Tough: Com certeza, os genes têm sua importância e as crianças têm, sim, diferentes temperamentos. Mas exageramos na importância dada a esse fator. As pesquisas sobre as quais escrevo no meu livro dizem que o ambiente em que as crianças crescem têm um enorme efeito no desenvolvimento dessas habilidades não-cognitivas, principalmente o ambiente familiar nos primeiros dias de vida. Um dos estudos diz que as interações com os pais já na primeira semana de vida pode prever diversos resultados que a criança terá na vida. Essas habilidades podem ser praticadas e melhoradas.
3. Qual é a importância de enfatizar que essas habilidades podem ser ensinadas e aprendidas?
Paul Tough: Existem muitos pais e professores que pensam que não há nada a fazer, já que existem crianças que são de um jeito e outras de outro jeito. Eles têm o que alguns psicólogos, como Carol Dweck, da Universidade de Stanford, chamam de "fixed mind-set (código mental fixo ou estático, em português). Isso tem um efeito negativo de duas maneiras. A primeira é que faz professores e pais desistirem de ajudar as crianças a se desenvolver. A segunda é que isso envia uma mensagem para essas crianças, a de que elas são o que são e nada do que fizerem pode mudar isso. Isso é muito negativo. 

Nós sabemos pelo trabalho de Carol Dweck que crianças assim não se esforçam, não dão o máximo de si, não lidam bem com falhas... Agora, quando as crianças conseguem desenvolver o "growth mind-set" (código mental construtivo ou de crescimento, em português), elas acreditam que podem se tornar mais inteligentes, mais curiosas, mais determinadas, mais equilibradas. Por isso, trabalham mais duro e têm uma visão mais positiva da vida, se sentem capazes e que podem traçar seu destino - e podem!
4. Qual é o papel que os pais e as escolas devem ter no desenvolvimento das habilidades não-cognitivas? Há alguma ''divisão de trabalhos''?
Paul Tough: Mais do que pensar em uma divisão de trabalho, prefiro ver como uma colaboração. Sem dúvida, os pais podem desempenhar um papel enorme. Nos primeiros anos, os pais são os principais "professores", a principal influência na vida da criança. Uma das coisas que sabemos a partir das pesquisas neurocientíficas é que esses anos são extremamente importantes para o desenvolvimento das habilidades não-cognitivas, para prever as tendências dessas habilidades mais tarde.

O tipo de ambiente que os pais criam e a mensagem que eles passam para suas crianças na primeira infância têm um impacto enorme. Nós precisamos fazer um trabalho melhor para auxiliar os pais nessa tarefa, especialmente para pais em desvantagem socioeconômica.
5. E o que os pais devem fazer para oferecer esse ambiente favorável para o desenvolvimento das habilidades não-cognitivas?
Paul Tough: Pode parecer óbvio, mas uma das melhores coisas que você pode fazer pelo seu filho, especialmente na primeira infância, é estar lá com ele. É amá-lo. É se conectar com ele. É brincar, conversar, conviver com ele. Pode parecer senso comum, mas, na verdade, os neurocientistas mostram que isso tem um enorme impacto no desenvolvimento cerebral das crianças. 

Alguns pais podem estar ansiosos e preocupados em inscrever os filhos em várias atividades para desenvolver mais essa gama de habilidades necessárias. A mensagem é: acalmem-se! Esse excesso de atividades e exercícios, na verdade, gera um estresse negativo para essas crianças. 

Trata-se de uma mudança de mentalidade. Quando os pais entendem a importância dessas habilidades e sabem como elas se desenvolvem, eles tendem a refletir de maneira diferente sobre que tipo de Educação querem para seus filhos. O que acontece na escola é, com certeza, importante, mas se sentir conectado com a família, se sentir bem consigo mesmo, ter um ambiente familiar estável e seguro também importam muito, mais do que os pais normalmente acham.
6. Em seu livro, você fala que talvez algumas crianças precisem fracassar mais para chegar ao sucesso. Poderia explicar como e qual tipo de fracasso pode ser bom para as crianças?
Paul Tough: Eu escrevi um artigo para a revista do New York Times [jornal norteamericano] chamado ‘’E se o segredo para o sucesso for o fracasso?’’, falando que por meio do fracasso é possível desenvolver essas habilidades, como determinação e autocontrole. Tenho que admitir que essa manchete é um pouco simplificada demais, eu não acho que o fracasso por si só pode levar ao sucesso. 

Passei muito tempo cobrindo bairros de baixa renda e o problema dessas crianças não é que elas não possuem uma quantidade suficiente de fracassos, essas crianças são cercadas de fracassos. E isso não as deixa mais inteligentes.

Há o que eu chamo de uma "lacuna de adversidade". Algumas crianças que crescem na pobreza enfrentam muitas adversidades e muitos fracassos em suas vidas. O que elas mais precisam é de proteção. E há outras crianças, especialmente as que crescem em ambientes mais ricos, que estão sendo superprotegidas e não possuem oportunidades suficientes para fracassar e precisam ser mais expostas. 

Não é o fracasso por si só que ajuda as crianças a serem bem-sucedidas, porque falhar nunca é bom ou divertido. Mas quando pais, professores ou outros adultos ajudam as crianças a lidarem com o fracasso, então é possível transformá-lo em oportunidade de crescer e de aprender como superá-lo.
7. Como pais podem ajudar seus filhos a transformar fracassos e derrotas em crescimento e aprendizado?
Paul Tough: Eu falo no livro sobre a professora de xadrez Elizabeth Spiegel que é muito boa nisso. O que ela fez, mais do que tudo, para criar um ótimo time de xadrez em uma escola pública, foi ensinar as crianças a perder. Ela mostrou que perder não é um desastre, não é o fim do mundo. Ao mesmo tempo, ela diz que esses meninos devem levar a sério, pois importa, sim, se eles ganham ou se perdem - não é como os discursos de que o importante é competir e se divertir. Mas, quando falham, a coisa mais importante a fazer é descobrir o que fizeram errado, o que poderiam fazer diferente da próxima vez. A função dela não é evitar fracassos, mas encará-los com total honestidade.
8. Deixar os filhos fracassarem não parece ser algo fácil de conseguir...
Paul Tough: Claro, há algo no DNA dos pais que nos faz querer proteger nossas crianças. O que muitos pais, inclusive eu, devem entender é que ao tentar proteger nossos filhos, muitas vezes estamos fazendo mais mal do que bem. Saber disso não torna mais fácil a tarefa de nos distanciarmos e deixamos nossos filhos vivenciarem suas frustrações. Isso pode ser bem doloroso para os pais, mas é muito importante tentar.
9. E em relação às crianças que vivem mais adversidades e fracassos do que podem lidar? O que muda?
Paul Tough: Independente de haver mais ou menos fracasso, a mensagem para os pais é a mesma: eles precisam ajudar seus filhos a lidarem melhor com o fracasso, a crescerem a partir das frustrações. Há pais que fazem milagres, que vivem em circunstâncias muito difíceis e ainda assim conseguem oferecer ótimas oportunidades para seus filhos. Nós precisamos reconhecer isso e aplaudi-los. Mas ao mesmo tempo, sabemos que eles são exceção. 

Para a sociedade como um todo e para os governos o que essas crianças precisam é de proteção. Para mim, essa é a razão pela qual os programas sociais para famílias de baixa renda importam, porque se conseguirmos mudar o ambiente dessas crianças, conseguiremos mudar seus desfechos, a maneira como vão na escola, as oportunidades de alcançarem o sucesso quando adultos.
10. Como isso pode ser feito? Quais são as intervenções possíveis nos casos de famílias vulneráveis?
Paul Tough: A sociedade precisa fazer um trabalho melhor para ajudar as famílias de baixa renda de uma maneira diferente da atual. 

Eu sei mais sobre o contexto americano, mas acredito que isso também se aplique ao Brasil. Apenas dar dinheiro, comida e moradia - que são, sim, muito importantes - não é o suficiente. Alguns pais também tiveram infâncias difíceis e precisam de ajuda para desempenhar melhor seu papel. Eles precisam saber que podem, sim, ser bons pais. Algumas iniciativas sobre as quais escrevo no livro trabalham diretamente com pais e são muito eficazes.
11. Qual é a importância das habilidades não-cognitivas para essa discussão?
Paul Tough: Mesmo que crianças de famílias mais ricas tenham dificuldades para desenvolver as habilidades não-cognitivas - e muitas realmente não têm perseverança ou autocontrole -, elas podem contar com uma rede que os protege, os pais mais ricos podem prover essa proteção. Mas as crianças que cresceram em famílias mais pobres não têm essa chance. Se elas vão mal na escola ou tomam decisões erradas, os resultados podem ser desastrosos. Se é justo ou não, a verdade é que para as crianças de baixa-renda, as habilidades não-cognitivas representam uma ferramenta. Não resolve a desigualdade e a injustiça, mas dá chances de contorná-las, dando oportunidade para superar as desvantagens.

O mais encorajador dessa discussão sobre as habilidades não-cognitivas é que seu desenvolvimento não depende de dinheiro. É claro que ajuda ter dinheiro para comprar livros e tudo mais, mas não é isso que faz diferença. O que faz diferença é a relação, a conexão entre pais e filhos. E mesmo pais de baixa renda conseguem criar essa ligação com os filhos, conviver com eles e encorajá-los.
12. Como a pesquisa e o processo de escrever o livro mudaram a maneira como você educa seu filho?
Paul Tough: Meu filho, Ellington, nasceu quando eu estava começando a escrever o livro. Hoje ele tem quatro anos, então eu li sobre o desenvolvimento do cérebro, sobre a importância do apego seguro exatamente nos primeiros anos de vida dele, que os neurocientistas chamam de "período sensível". Isso me afetou muito. Primeiro, me ajudou a ficar mais tranquilo. Eu era o pai que acreditava na "hipótese cognitiva", queria que meu filho desenvolvesse as habilidades em leitura e matemática desde cedo. Essa pesquisa me ajudou a ver que o importante era a relação que ele estabelece comigo e com a mãe dele. 

Esse processo me ajudou a lidar com fracasso, a ver como é a frustração para uma criança de um, dois, três anos. Quando ele chora, quando ele está frustrado ou bravo porque alguém roubou seu carrinho no parquinho, eu tento oferecer estratégias para ele conseguir lidar com isso. E eu me surpreendi ao ver que, mesmo com 3, 4 anos, ele é capaz de ter esse tipo de conversa e consegue refletir sobre seu próprio pensamento, sobre como ele está reagindo às situações. Essas conversas funcionam pra ele, mesmo que ele ainda seja uma criança pequena.
13. Qual recado você deixaria para os pais brasileiros?
Paul Tough: Há uma frase que uma neurocientista me disse e acho que não escrevi no livro, mas me marcou muito: "o papel mais importante dos pais é saber como lidar e canalizar o estresse no ambiente familiar". Ela conhece o efeito enorme do estresse nas crianças. Há coisas que aumentam o estresse nas crianças e há maneiras de os pais ajudarem as crianças a lidarem melhor com o estresse. 

E isso é verdade, mesmo depois da infância. Mas não se trata de protegê-las do estresse. É ajudá-las a lidar e a superar esse estresse. É mostrar para elas que é possível se recuperar depois de um estresse. Que podem, por exemplo, ter um acesso de raiva e superá-lo sem a ajuda de um adulto. Deixá-las perceber que podem lidar com esses sentimentos fortes e negativos é uma ótima oportunidade e experiência.
Texto: Iana Chan - Educar para crescer.abril.com.br